Blog de Adriana Queiroz


Domingo , 09 de Agosto


Eu respeito os caminhos que você trilhou...

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Lembrando-me de meu genitor, nesse segundo dia dos pais sem a sua presença física, parei para refletir no ato dos indianos que se curvam perante os mais velhos e tocam seus pés em sinal de respeito e devoção pelos caminhos que eles já trilharam por toda a vida. Um gesto não apenas bonito, mas profundo.Na Índia assim como no Japão os idosos são verdadeiramente respeitados, como sábios, o que, de fato, são.

A cada cena da novela global em que alguém se curva e toca os pés do ancião (a), me dá uma ponta de arrependimento, quase remorso. Não posso deixar de pensar que não fui assim com meu pai. Que quando criança o via como meu herói,mas com o passar do tempo, com a chegada da vida adulta, muitas vezes enxerguei meu pai como um homem ultrapassado, que já não tivesse mais o que me ensinar. Ledo engano! Quanta sabedoria por baixo daqueles cabelos brancos. As mãos calejadas, a face cansada, o corpo pesado e com muitas enfermidades estampavam no físico quão longo caminho aqueles pés já haviam percorrido. Quanto tempo perdí conversando com outras pessoas e deixei de escutá-lo. Poderia ter aprendido mais sobre nossa profissão, saber melhor como me safar de determinadas situações, poderia ter mais firmeza nos meus atos, mais destreza nas minhas decisões. Infelizmente, a vida é assim e a gente só se dá conta da falta que as pessoas fazem depois que elas partem. Mas tenho comigo, no meu íntimo, que embora eu não tenha feito por ele nem um décimo do que ele fez por mim, eu tentei dar o meu melhor. Mas certamente, se eu soubesse que o perderia tão cedo, afinal, 67 anos para um ser tão iluminado, foi uma passagem curta,eu teria feito muito mais. Teria ouvido mais. Colado mais. Hoje, nesse segundo domingo de agosto, não posso tocar - lhe as pontas dos pés. Mas não posso deixar de dizer, que respeito muito e reverencio os caminhos tortuosos, pelos quais você, meu pai, passou. E foi pesado, difícil. Deixou-lhe marcas na alma para que conseguisse criar 06 filhos, ajudar 07 netos e tantas outras pessoas que você, de uma forma ou de outra, carregou em seus ombros. O destino poderia ter lhe poupado de enterrar seu primôgenito, a vida poderia ter sido mais leve. Mas tudo foi como tem que ser para os fortes. E você sempre foi uma muralha que me deu abrigo a vida toda. E esse texto é só para lhe  agradecer imensamente pela honra de ter sido sua filha por 36 anos, 09 meses e 2 dias. E uma eternidade. Pois a morte não nos separa daqueles a quem amamos verdadeiramente e cedo ou tarde, a gente se encontra...

"Ninguém quer saber o que fomos, o que possuíamos, que cargo ocupávamos no mundo; o que conta é a luz que cada um já tenha conseguido fazer brilhar em si mesmo"...

Escrito por Dri Queiroz às 23h18
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