Blog de Adriana Queiroz


Segunda-feira , 12 de Outubro


12 de outubro - Ainda há futuro?

Não falo como mãe, falo como quem já foi criança um dia, afinal, tal qual "Machado de Assis " não tive filhos, não transmití a ninguém o legado da miséria humana." Ser criança há 30 anos era muito diferente, embora a década de 80 já se iniciasse na violência e no tráfico, pelo menos na classe média isso ainda estava distante. Não tive contato com a violência doméstica, muito pelo contrário, meu pai era homem afetuoso e numa família grande, éramos 5 e depois nos tornamos 6, a infância era uma fase gostosa de ser vivida. Assistíamos TV juntos, só coisas boas como Sítio do Pica-pau Amarelo, Vila Sésamo, Perdidos no Espaço, A Feiticeira, enfim, tudo bem diferente da Malhação de hoje. Aos domingos, nos reuníamos em familia, numa mesa populosa e farta, onde não se conhecia a palavra pedofilia, prostituição infantil ou aviõeszinhos do tráfico.

Choro pelas crianças de agora, abandonadas em casa por pais que trabalham dia e noite ou pior, nas ruas por genitores miseráveis que aumentam a prole para terem mais chance à bolsa- família, não são tuteladas pelo Estado,mas pelo tráfico. Nas favelas conhecem cedo a violência, conseguem chegar à vida adulta se tiverem a sorte de escapar das balas perdidas. As meninas e por que não os meninos também, frequentemente são apresentados à agressão dentro de casa. Lembro de uma campanha da Vara da Infância que trazia cartazes com a seguinte frase:" Mamãe foi na roça, mas papai não foi trabalhar. Violência sexual, denuncie!"  Nas escolas se debatem, vítimas de professores despreparados, agressivos, de traficantes que esperam por elas nos portões e acabam abandonando os bancos escolares ainda no ensino fundamental.

O que fazer? Claro que o problema tem que ser tratado na raiz e o controle de natalidade seria um ótimo começo. Mas e quem já veio ao mundo, não merece uma chance? Por que não investir em programas de aprendizagem, que façam com que essas crianças permaneçam  tempo integral nas escolas. Por que não ensinar-lhes poesia, literatura, dança, música, teatro, esportes? Garimpagem feita por gente competente que saiba enxergar em cada um deles o seu potencial. Façam com que os ricos que estudaram nas faculdades públicas, dediquem parte de seu tempo ensinando essas crianças ou cuidando de sua saúde. Agilizem as adoções, tirem-nas das mãos de seus algozes, sejam eles pais,mães ou padrastos.

Quero imaginar um mundo onde nenhuma criança seja jogada da janela de um prédio, quero crer que um dia virá em que homem algum tenha coragem de colocar suas mãos e principalmente seus órgãos sexuais numa criança, afinal, elas são puras e é delas o reino dos céus.

Que uma força - tarefa que envolva Estado, Sociedade, famílias, se forme e que o tráfico venha a falir por falta de compradores. Que nenhuma criança precise de crack para aplacar sua fome ou para esquecer a miséria humana que lhe foi legada, sem ao menos pedir.

Hoje é o dia das crianças e se posso lhe dar um conselho, como filha, não dê um video game de última geração como presente, dê um aquário, um gato, um cachorro, um coelhinho, um hamster, uma vida inocente para seu filho começar a cuidar. Ensine o amor. Ensine o respeito todas as espécies. Ensine a generosidade, a bondade. Ah, duas coisas: não se esqueça de lhe dar do seu tempo e o que é mais importante ainda, dê o exemplo!

 Lembre-se antes de mais nada que vc foi uma criança liberta, acariciada...Regrada ! Valores que nossos antepassados não desapercebiam,mesmo que ,às vezes um tanto rude, mas nossos pais, quanto os honravam ! Embora  filhos de uma geração sofrida, nos deram afeto, carinho e compaixão...

 Não tem preço que pague uma mesa "a moda italiana" de se conviver em união. Queremos e podemos sim, resgatar os piqueniques em familia...E não deixar que qualquer ditame moderno aplaque a pureza e a honestidade que toda uma geração construiu ao longo dos séculos, certamente pensando em seus filhos, bisnetos e as sucessivas gerações que construam no futuro um mundo gostoso pra se viver, para brincar...Ahh...Se eu pudesse viver minha vida novamente...Riso( Rubem Alves )  Texto de Adriana e Marcelo

 Adriana - agosto/1980

 

Escrito por Dri Queiroz às 13h52
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